Quatro em cada dez jovens já chegam à vida adulta com o nome negativado, e especialistas alertam para impacto no empreendedorismo

O Brasil encerrou 2025 com um recorde de 81,2 milhões de inadimplentes, número que representa 49,7% da população adulta, segundo a Serasa. Entre os jovens, o cenário é ainda mais preocupante: levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito indica que quatro em cada dez jovens brasileiros já tiveram o nome negativado nos primeiros anos da vida financeira. O dado preocupa economistas e especialistas porque a inadimplência precoce não compromete apenas o consumo imediato, mas também a capacidade de investimento, o acesso ao crédito e a abertura de novos negócios.

O Brasil figura entre os países com maior taxa de empreendedorismo inicial, segundo o Global Entrepreneurship Monitor. Muitos desses empreendedores são jovens que iniciam pequenos negócios em comércio, serviços e economia digital. A dificuldade surge quando o histórico financeiro negativo impede o acesso a crédito e capital de giro, travando projetos antes mesmo de saírem do papel. Para Deivyd Barros, empreendedor, cofundador do Ôze Resolve e fundador da Investeens — empresa de educação financeira que já realizou palestras para mais de 7.500 jovens —, o impacto vai além do curto prazo. “Quando o jovem começa a vida adulta endividado, ele perde acesso ao crédito, reduz sua capacidade de investimento e, muitas vezes, adia projetos empreendedores que poderiam gerar renda e desenvolvimento local”, afirma.

Entre os fatores que explicam o aumento da inadimplência entre jovens estão a entrada no crédito sem orientação adequada, o uso do cartão de crédito como complemento de renda, a falta de planejamento ao iniciar pequenos negócios, a ausência de reserva de emergência e o desconhecimento sobre juros e renegociação de dívidas. Segundo Barros, um equívoco comum é a mistura entre finanças pessoais e as do negócio. “Empreender exige planejamento. Sem educação financeira, o jovem pode misturar finanças pessoais com as do negócio e aumentar o risco de endividamento. Isso cria um ciclo difícil de quebrar”, explica.

O especialista defende que a educação financeira vai além da orientação para cortar gastos. “É sobre ensinar o jovem a usar o dinheiro como ferramenta para crescer, investir e criar oportunidades”, afirma. O tema ganha relevância adicional em regiões periféricas, onde o empreendedorismo surge como principal alternativa de geração de renda e a falta de acesso à orientação financeira pode aprofundar a vulnerabilidade econômica. “Quando levamos educação financeira para jovens de regiões periféricas, não estamos apenas falando de dinheiro. Estamos criando condições para que eles empreendam, gerem renda e transformem suas comunidades”, conclui Barros.


Os dados de inadimplência são da Serasa, referentes ao encerramento de 2025, e do Serviço de Proteção ao Crédito. Os dados de empreendedorismo são do Global Entrepreneurship Monitor.

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