Durante muito tempo, o investimento empresarial em esporte foi visto como uma ação de marketing pontual — exposição de marca em uniformes, placas em estádios e ativações em grandes eventos. Hoje, essa visão é limitada. Em um país como o Brasil, onde o esporte é linguagem compreendida por todas as camadas sociais e ao mesmo tempo ferramenta de transformação social, apoiar modalidades esportivas — especialmente as femininas — é uma decisão estratégica que conecta reputação, cultura organizacional e visão de futuro.
No Brasil, temos talentos, diversidade e um capital humano extraordinário. No entanto, ainda convivemos com profundas desigualdades de acesso, patrocínio e visibilidade, particularmente quando falamos do esporte feminino. A diferença de investimentos entre modalidades masculinas e femininas não é apenas uma questão de mercado; é um reflexo estrutural da nossa sociedade.
Relatório da FIFA mostra que a média salarial anual de uma jogadora profissional é de US$ 10,9 mil, valor muito inferior ao do cenário masculino, no qual atletas de elite frequentemente recebem essa quantia em uma única semana.
A discrepância também aparece nas competições. Em um dos últimos Brasileirões, o campeão masculino recebeu cerca de R$ 33 milhões em premiação, enquanto o time feminino levou aproximadamente R$ 290 mil, uma diferença de mais de cem vezes.
Empresas que desejam permanecer relevantes nas próximas décadas precisam ampliar sua visão sobre o papel que desempenham na sociedade. O esporte, especialmente no Brasil, é uma das plataformas mais poderosas de mobilização social, construção de identidade e geração de oportunidades. Quando uma organização decide apoiar o esporte — e, de maneira estratégica, o esporte feminino — ela está fazendo muito mais do que investir em visibilidade: está sinalizando que entende o seu tempo e está disposta a influenciar o próximo.
No Brasil, o número de marcas patrocinadoras na elite do futebol feminino mais do que dobrou nos últimos cinco anos, segundo dados da CBF e do mercado publicitário, refletindo um amadurecimento do ecossistema. Ainda assim, o investimento permanece significativamente inferior ao destinado ao futebol masculino, o que revela não apenas um desafio, mas uma oportunidade estratégica.
Há também um componente estratégico inegável. Os consumidores, especialmente das novas gerações, observam com atenção onde e como as empresas investem. Marcas que apoiam causas consistentes, com continuidade e profundidade, constroem reputação de longo prazo. Em um cenário de competição intensa e crescente escrutínio público, reputação deixou de ser atributo intangível para se tornar diferencial competitivo mensurável.
Mas o impacto vai além da percepção externa. Iniciativas como essa fortalecem a cultura empresarial, o engajamento e o pertencimento. Colaboradores querem trabalhar em empresas que refletem seus valores e que assumem posição em temas relevantes. O apoio ao esporte feminino comunica, de forma inequívoca, que acreditamos em diversidade, mérito e oportunidades reais — princípios que também orientam nossa gestão.
O Brasil sempre foi o País do Futebol. Agora, temos a oportunidade de ser também o país da equidade no esporte. Empresas que entendem isso não estão apenas patrocinando times; estão ajudando a redesenhar o futuro. Ao apoiar o esporte feminino, escolhemos participar ativamente de uma transformação que transcende o campo e ecoa na sociedade. E, no fim, é essa capacidade de unir negócio, impacto e valores que diferencia organizações comuns de organizações que realmente deixam legado.
Márcio William é CEO da Remessa Online

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