O brasileiro não está sendo enganado pelos índices de inflação. O que ele sente no bolso é real e tem uma explicação técnica que os números oficiais não conseguem capturar completamente. Enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo registrou alta de 4,39% nos doze meses até abril deste ano, segundo o IBGE, o custo efetivo de manter o mesmo padrão de vida cresceu de forma diferente, e em muitos casos mais rápida do que a renda das famílias.
A distinção é fundamental. Inflação mede a velocidade com que os preços sobem. Custo de vida é quanto uma família precisa gastar para sustentar seu padrão de consumo num determinado lugar. Rodrigo Simões, diretor do Núcleo de Estudos da Faculdade de Comércio de São Paulo, ligada à Associação Comercial de São Paulo, explica que, depois de um reajuste, os preços raramente voltam ao nível anterior. Tudo incorpora o aumento, do aluguel à logística, e permanece mais caro indefinidamente. A inflação cai, mas o patamar não.
Os dados concretos reforçam essa percepção. Entre 2011 e 2025, o valor da cesta básica subiu 205,1%, passando de R$ 277,27 para R$ 845,95. No mesmo período, o salário mínimo avançou 178,5%, saindo de R$ 545,00 para R$ 1.518,00. Em 2011, a cesta consumia 50,88% do mínimo. Em 2025, passou a consumir 55,73%. Ficou mais caro comer, e as famílias foram obrigadas a abrir mão de outras coisas.
Em abril deste ano, a cesta básica em São Paulo chegou a R$ 906,14, o maior valor do país, representando 60,43% do salário mínimo atual de R$ 1.621,00. Para cobrir não apenas a alimentação, mas também moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, conforme prevê a Constituição Federal, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos estima que o salário mínimo deveria ser de R$ 7.612,49.
É nessa distância entre os índices oficiais e a experiência cotidiana que mora o paradoxo político do momento. O governo entrega números macroeconômicos positivos como crescimento do PIB, queda do desemprego e valorização do salário mínimo. Mesmo assim, enfrenta baixa aprovação popular, porque a percepção das famílias é de aperto no orçamento. As filas de supermercado não mentem. E os economistas, a contragosto, precisam admitir que quem diz que está tudo caro demais está tecnicamente certo.

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